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Alergia ao látex em profissional de saúde

Ney Bartolomeu Corrêa

  • Setor de Alergia e Imunologia do Serviço de Clínica Médica/H.S.E.

Resumo:

A alergia ao látex mediada por IgE é uma entidade nosológica, cuja prevalência aumenta em todo o mundo. O uso de preservativo (camisinha), devido ao perigo de contaminação da AIDS, o aumento de materiais esportivos contendo látex e materiais de látex utilizados por profissionais da saúde, aumentam sua incidência.

O látex tem como principal alergeno o fator de alongamento da borracha (Hevb1). Existe antigenicidade cruzada com alimentos e pólen. É importante que os trabalhadores da área de saúde reconheçam a patologia, para que façam a prevenção e o diagnóstico.

INTRODUÇÃO:

O látex é um líquido leitoso da árvore Hevea Brasiliensis capaz de causar reações de hipersensibilidade do tipo 1 mediada por IgE e do tipo 4 ( 12 ). A borracha natural (cis – 1,4 – poliísopreno).

A história da borracha comercial iniciou-se na Amazônia Brasileira, de onde foi levada para Londres por um botânico inglês Sir Henry Wckham em 1876. As sementes da nossa seringueira nativa foram semeadas no Herbarium Tripical de Kerw Gardens de Londres. Em 1877, foram levadas 22 sementes para Ceylon (atual Srilanka ) e para Singapura.

Após 40 anos ingleses na Malásia e holandeses na Indonésia reflorestaram grandes áreas com seringueiras. A colheita do látex é feita por meios de incisões oblíquas, em forma de V , no vértice coloca-se uma tijelinha, que é recolhida duas horas depois para que a seiva seja defumada. Esta ao coagular-se constitui a borracha ( 5 ). Durante a Segunda Guerra mundial, Charles Goodyear descobriu o processo de vulcanização da borracha, dando origem a borracha sintética.

Na literatura há divergência quanto ao ano em que foi descrito o primeiro caso de alergia ao látex, se em 1927 na Alemanha ( 16 ) ou em 1979 por Nuter na Inglaterra (10 ).

EPIDEMIOLOGIA

A prevalência na França, na Finlândia, e nos E.U.A. é de 2,6% à 16,9%, enquanto no Brasil é desconhecida. Os grupos de risco para desenvolverem hipersensibilidade ao látex são: pacientes atópicos submetidos a várias cirurgias, trabalhadores na industria de borracha, esportistas, indivíduos expostos a meios de diagnósticos e terapêuticos, e profissionais da área de saúde.

PATOGENESE

Usam-se concentrados de látex na produção de adesivos, esponjas, forros de carpetes, luvas, balões, preservativos, brinquedos, elásticos, equipamentos esportivos, vestuários e utensílios médicos e dentários.

Através de métodos imunoquímicos e eletroforéticos estudaram-se duas preparações diferentes de látex uma com altas concentrações de amônia e outra sem amônia. A amônia é acrescentada na manufatura do látex para aumentar sua elasticidade. Light and Dennis, 1989, identificaram e caracterizaram a seqüência de aminoácidos do fator alongamento do látex, composto por 137 aminoácidos com pêso molecular de 14,6 Kd, que seria o principal alergeno ( 7 ).

A alergenicidade dos produtos do látex pode variar de acordo com o clone utilizado no cultivo e na manufatura do mesmo. Existe uma variação significativa entre o número e o tipo de proteínas do látex. Látex amoniacado possui menos peptídios do que látex não amoniacado ( 15 ).

Nos últimos anos demonstraram-se reações cruzadas entre látex e alimentos ( 1 ). Descreveram-se reações cruzadas com abacate, nozes, banana ( 4 ) ( 9 ) mamão ( 3 ) melão, pêra, frutas cítricas, manga, maracujá, pêssego, kiwi, cereja ( 2 ), uva, tomate, cogumelo e frutas secas ( 11 ) ( 13 ), abricó, amendoim, avelã e côco. Algumas raízes como batata, mandioca e cenoura, e também com pólen ( 1 ).

A exposição ao antígeno do látex pode ocorrer por via cutânea, percutânea, mucosa e parenteral ( 14 ).

QUADRO CLÍNICO:

Sinais e sintomas podem ser localizados ou generalizados. Consiste em urticária, angiodema, conjuntivite, rinite, asma e choque anafilático. O prurido inicial poderá ocorrer em cinco minutos após o contato com o produto do látex. As erupções cutâneas ocorrem após 60 minutos da remoção das luvas. A reação é geralmente localizada na região de contato ( 15 ).

Estima-se ser necessária uma exposição de 6 meses a 15 anos para o desenvolvimento da sensibilização com o antígeno do Látex.

Descreveram-se choque anafilático durante atos cirúrgicos ( 8 ). Choque anafilático com uso de preservativo ( 7 ). Após jogo de squash. Choque anafilático e angioedema com bexiga de soprar. Em cirurgia de reconstrução de anomalias genito-urinárias. Choque anafilático após episiorrafia com uso de luvas de látex.

DIAGNÓSTICO

Para um diagnóstico correto é necessário história clinica detalhada evidenciando doença atópica (asma, alergia alimentar, anafilaxia prévia, conjuntivite, urticária de contato ao látex).

Grupos de risco como: profissionais da área de saúde; pacientes com vários procedimentos cirúrgicos ou que necessitaram de vários procedimentos diagnósticos invasivos com materiais contendo látex; trabalhadores na indústria de látex, esportistas que usam materiais com látex e artistas que usam materiais com látex são passíveis de desenvolverem alergia ao látex.

MÉTODOS DE INVESTIGAÇÕES DIAGNÓSTICA:

  • Testes “in vivo”:
    • Testes de puntura com látex consideram-se positivos quando o diâmetro da pápula for igual ou superior a 3 mm.
    • Testes cutâneos intradérmicos dever-se-ão realizar quando há dúvida com testes de puntura.
    • Testes de contato com material contendo látex ( exemplo luvas ).
  • Testes “in vitro”: Identificar anticorpos IgE específico para látex:
    • Radioalergosorbent test ( Rast ).
    • Enzima imuno ensaio ( Elisa ).
    • outros testes “in vitro”: IgE Total, Westem Blot, Dosagem de IgG4, liberação da Histamina.
    • A alergia ao látex é uma hipersensibilidade que afeta os trabalhadores na área de saúde, os pacientes que tenham várias cirurgias e procedimentos diagnósticos, bem como os esportistas e os artistas.

      É necessário que os médicos em geral tenham conhecimento desta patologia, para melhor orientar seus pacientes, bem como reconhece-la e efetuar o diagnóstico correto e prevenir um choque anafilático.

      Referências bibliográficas:

      1. ANDRE NEL, MD AND CHANDRAS E KHAR GUJULUVA. Phd-latex Antigens identification and use in clinical and experimental studies, including cross reactivity with pollen allergens. Ann. Allergy, Asma,Immun. 81(5): 394, 1998.
      2. ANTIBARRA, B., GARCIA., AM., PASCUAL, C. Associatted sensitiazation to latex and chest nut. Allergy 48: 130, 1993.
      3. BAUR, X., CHEN, Z., ROZYNEK P. , ET AL. Cross-reacting IgE antibodies recognizing latex allergens, including Hev. b1 , as well as papain. Allergy, 50: 604-609,1995.
      4. BLANCO C. , CARRIDOR T., CASTILLO QUIRALTI J., CUEVAS M. Látex allergy. Clinical leatures and cross reativity with fruito. Ann Allergy. 4: 309 -314, 1994.
      5. Cadernos de Alegria, Asma e Imunologia. 11(2): 4, 1999.
      6. COUTINHO NETTO, J., OLIVEIRA, J.A. O látex que cicatriza. Diálogo médico 14 (5): 47-49, 1999.
      7. DENNIS, R.O. Is rubber elegation jactor the major of látex J. Allergy Clin Immunol 92: 633-635, 1993.
      8. JONG, TP., DAVIDSON, AE., KLEIN, DE. SELTIPANE, G.- Latex hypersensitivity, two case reports. Allergy Proc 2:71-73, 1992.
      9. LATASA, M., DIEGUEJ, T., SANZ, M.L. ET AL. Fruit senzitization in patiens with allergy to latex. J. Investig Allergol Clin Immunol – 5: 97-102, 1995.
      10. LEVY, DA. CHARPIN, D. PEEGUET, C. LEYNADIER, F. VEAVOET, D. Allergy to látex – Allergy 47:579-587,1992.
      11. LEYNADIER, F, PEEGUET, C., DRY, J. Anaphylaxis to latex during surgery. Anaesthesia, 44:547-550,1989.
      12. MACHADO, M., PRADO, E., GOUDOIS, E. Hipersensibilidade ao látex. Rev.SBAI: 16 (1): 34;1993.
      13. MAKINEN – KILJUNEN, S.. Banana allergy in patients with immediate type hipersensibility to natural rubber latex: characterization of cross – reacting antibodies and allergues. J.Allergy Clin Immunol 93: 990 – 996, 1994.
      14. RICH, P . ; BELGZER, M .L .; NORRIS, P. STORRS, F. J . Allergic contact dermatitis two antioxidant in latex gloves: 4’4 – Thiobis (6-tertbutyl-meta-cresol) Lowinax 44536 and butylhydroxyanisole. Am. Ac. Dermatol. 1:37- 43,1991.
      15. SANTIAGO LOPEZ, M.S.B.D., CASTRO, F.F.M. Res Bras. Alerg. Imunopatol. 18(45):127,
      16. SLATER, J.E.: Látex allergy. J. Clin. Immunol 94:139-149,1994.
      17. VERVLOET, D., Pradal, M. Drug allergy. 1992: p.223.

      Fonte: http://www.hse.rj.saude.gov.br/profissional/revista/33/latex.asp